Leitura Dinamica Funciona? – A Verdade Revelada!

Será que leitura dinâmica funciona mesmo ou não? Confira neste artigo!

(Artigo escrito por Bryan Gardner. As opiniões expressadas pertencem ao autor(a) do texto e podem não refletir a visão do Estudo Eficiente!)

Texto Original

Tradução: Giovane Bertuol

Revisão Adicional: Gustavo Mattos


DE ACORDO COM o ícone no meu celular, eu tenho 667 artigos não lidos na minha conta no Instapaper. Eu também tenho 12 romances não-baixados esperando por mim nos servidores da Amazon, 142 e-mails não abertos, e sofro com o que os japoneses chamam de tsundoku (uma pilha pesada de livros e revistas amontoados na minha cabeceira e escrivaninha há muito tempo).

Como muitas pessoas, eu estou me afogando em palavras. Não é de admirar então que a leitura de velocidade – leitura a uma velocidade aumentada sem perda de compreensão – seja um recurso cada vez mais popular para o pessoal que quer resultados concretos e qualquer pessoa que adora o altar da produtividade. Quem não gostaria de passar sem dificuldades pela lista de leitura a +2500 palavras por minuto e devorar livros no estilo Johnny Cinco?

Essa é mais ou menos a promessa que a Leitura Dinâmica de Evelyn Wood, o Projeto PX de Tim Ferriss, o software chamado Spritz e inúmeras outras técnicas de leitura de velocidade fazem para os leitores sobrecarregados. Algumas envolvem abafar o seu discurso interno durante a leitura. Outras ensinam você a “dividir em blocos”, ou assimilar várias linhas de texto em um único olhar. E outras ainda eliminam a necessidade de mover os olhos de forma absoluta. Infelizmente, décadas de pesquisas psicológicas e percepções mais recentes sobre o sistema de processamento visual parecem confirmar apenas uma coisa: fazer as coisas de forma mais rápida significa fazê-las com menos precisão. Você pode aprender a ler mais depressa? Com certeza. Mas você não vai entender tão bem o que leu… Se entender algo.

O Rápido e o Falso

A maioria das pessoas instruídas podem ler aproximadamente no mesmo ritmo com o qual um leiloeiro fala (entre 250 a 400 palavras por minuto) com boa compreensão. Em comparação, o ritmo de uma conversa normal entre duas pessoas fica entre 150 e 160 palavras por minuto (que também é o ritmo recomendado para podcasts e áudio-livros). Isso torna a leitura normal um processo extremamente complexo. “Se você compreende e reconhece isso”, diz Elizabeth Schotter, uma psicóloga cognitiva na UC San Diego, “torna-se realmente óbvio que nenhum ser humano consegue ler 1000 ou 2000 palavras por minuto e manter os mesmos níveis de compreensão que consegue a 200 ou 400 palavras por minuto”.

Em um trabalho de pesquisa futuro, “Tanta Coisa para Ler, Tão Pouco Tempo: Como Nós Lemos e Será que a Leitura de Velocidade Pode Ajudar?” (em tradução livre), Schotter e seus coautores explicam os processos mentais e visuais envolvidos na leitura — dos símbolos que os olhos assimilam até o processamento cognitivo que se passa em segundo plano. É uma dança complicada entre uma variedade de processos visuais e mentais que é altamente dependente da linguagem.

Ao contrário da fala, a leitura e a escrita são, para pegar emprestada uma frase do psicólogo e linguista evolucionista Steven Pinker, “cognitivamente antinaturais”. Os pais não precisam ensinar uma criança a falar — isso é simplesmente um instinto humano. Escrever, por outro lado, não surge naturalmente. E por que isso importa? Ao invés de ser um processo puramente visual, tanto a leitura quanto a escrita são complementadas pela linguagem e pela fala. Isso tem profundas consequências em como os seres humanos processam e compreendem a escrita. Consequências essas que quase todas as técnicas de leitura de velocidade ignoram ou distorcem.

Ignore a Voz em Sua Cabeça

Pegue um dos malvados mais comuns no mundo da leitura de velocidade: subvocalização. Esse é o discurso interno que os leitores ouvem em suas cabeças enquanto leem silenciosamente. “Como todos nós aprendemos a falar e ouvir antes de aprendermos a ler, quase todo mundo tende a acessar os sons da fala quando leem”, diz Schotter.

Para os defensores da leitura de velocidade, a subvocalização é simplesmente um resquício descartável de quando os seres humanos aprenderam a ler em voz alta. Abafá-la, diz a teoria, irá reduzir a resistência que essa voz interna tem no ritmo de leitura interna de um indivíduo.

Eis o problema: quando os cientistas tentaram fazer com que as pessoas eliminassem essas subvocalizações – pedindo para que murmurassem constantemente enquanto liam ou tocando um som quando um sensor media qualquer atividade em suas cordas vocais – a compreensão caiu precipitadamente. “Há muita evidência de que quando as pessoas reconhecem as palavras visualmente, elas acessam os sons dessas palavras para compreendê-las”, diz Schotter.

Considere o que acontece quando você mostra às pessoas palavras que soam como uma palavra diferente e depois pede para que deem uma rápida opinião sobre elas — como “Essa palavra é um alimento, sim ou não?” “Se você lhes dá uma palavra que não é um alimento, digamos “MEET” (encontrar) , mas a palavra soa como um alimento “MEAT” (carne), então elas ficam mais propensas a dizer que sim, mesmo que seja a resposta errada”, diz Schotter. Mesmo quando as pessoas respondem que não, demora muito mais tempo para responder, ela diz. E ainda, quando lhes é apresentada uma palavra visualmente semelhante como “MELT” (derreter) , as pessoas não têm nenhum problema em dar a resposta correta.

Sacadas e Transgressões de Regressão

As técnicas modernas de leitura de velocidade também gostam de mirar as perdas de tempo conhecidas como regressões e sacadas. A primeira descreve as releituras inconscientes e rápidas que os humanos fazem quando não entendem algo. A segunda é uma palavra para os movimentos bruscos dos olhos de 0,1-segundos que um leitor usa para mover sua fóvea (centro de visão) de uma palavra para outra. Essas palavras também obtêm pausas breves de 250 milissegundos que são chamadas de fixações.

Spritz, uma empresa que usa um método conhecido como RSVP (Apresentação Visual Serial Rápida), elimina esses movimentos oculares que desperdiçam tempo ao apresentar uma palavra de cada vez para você, destacando o que chamam de “ponto ideal de reconhecimento” ou ORP de cada palavra.

Novamente, a ciência diz que isso tende a ter um impacto negativo na compreensão. Como Schotter descobriu em um estudo anterior, eliminar a capacidade do leitor de voltar e reler algo tira uma ferramenta importante para a compreensão do texto. “O software e os apps não sabem o que você está fazendo, eles não sabem qual é a sua representação interna, então eles não podem compensar uma falha na compreensão porque não têm acesso a esse conhecimento”, ela diz.

Da mesma forma, embora você tecnicamente não obtenha nenhuma nova informação visual durante as sacadas, pesquisas mostraram que o processamento cognitivo continua durante esse intervalo. Em essência, o seu cérebro usa esses desvios de 0,1 segundos para continuar trabalhando o que você acabou de leu. Remova isso e, bem…

Você me entende?

Woody Allen resume da melhor forma: “Eu fiz um curso de leitura de velocidade… E fui capaz de ler Guerra e Paz em vinte minutos. Ele fala sobre a Rússia”. Essa citação aborda uma das principais críticas taxadas contra a leitura de velocidade, mas também um dos principais problemas científicos que duvidam completamente dela. Embora seja fácil rastrear o movimento dos olhos e medir a velocidade de leitura, medir a compreensão é mais complicado.

“É meio que uma questão em aberto”, admite Schotter. “O que significa de fato compreender uma frase, um parágrafo ou um texto? Quão detalhado precisa ser o seu conhecimento das palavras de verdade versus a essência versus todo o resto?” Estudos até mesmo sugerem mudanças de comportamento de leitura com base nos tipos de perguntas de compreensão que você se faz. “Por exemplo, as pessoas leem de forma diferente se elas antecipam que farão uma pergunta a si mesmas sobre uma determinada palavra”, diz Schotter.

Atribuir uma pontuação de compreensão para resumos abertos de texto tende a ser subjetivo, de modo que pesquisadores como a Schotter geralmente medem a compreensão com perguntas de múltipla escolha apresentadas após uma frase ou parágrafo. Mas esses testes ainda funcionam apenas de forma parecida às perguntas — e às respostas incorretas, que são apenas um contraste com a resposta correta.

O Parágrafo Essencial

Apesar de tais dificuldades, a maioria das evidências científicas ainda aponta para uma coisa: a leitura de velocidade é essencialmente apenas uma forma de passar de leve. Mas olhe, passar de leve pode ser ótimo (e até mesmo preferível) em algumas situações. Softwares como o Spritz e outras abordagens RSVP — o Instapaper também tem agora a sua própria opção de leitura de velocidade — podem ser úteis para ler e-mails e textos mais curtos, particularmente em pequenas telas de relógios inteligentes. Mas se o seu objetivo for ler grandes blocos de texto de forma mais rápida e ainda absorver tanto significado e percepção dele quanto possível, a ciência realmente só tem duas soluções para você: leia mais para aumentar o seu vocabulário ou leia coisas que você já conhece muito bem.


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Este artigo foi escrito por algum colaborador do Estudo Eficiente!

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